CERVEJA E VINHO – INIMIGOS MORTAIS?

Esta semana, infelizmente, mais um desserviço foi prestado à cultura cervejeira. Muitos de vocês já devem estar cientes dos disparates proferidos pelo jornalista Renato Machado quando se meteu a comparar cerveja e vinho à luz das harmonizações gastronômicas. Se não, aqui está o link: http://bit.ly/9Z2Y1g

Não vou me ater a imaginar o que faz uma pessoa falar de um assunto que não entende ou que até provavelmente despreza, aparentemente. O fato é que este evento trouxe à tona vários aspectos que precisam ser passados a limpo.

1: A cultura da cerveja no Brasil ainda é pouco difundida, apesar de nossos esforços hercúleos e diários. A cerveja tem obtido, aos poucos, um bom destaque junto à imprensa, especializada ou não, e tem chamado a atenção de vários nomes da gastronomia. Para que a cerveja não seja considerada modismo ou “tendência” daqui a algum tempo, somente deixando bem claro a todos que cerveja não é moda. Não é tendência. Cerveja é uma bebida extraordinária, que carrega consigo uma cultura de milhares de anos e que é cúmplice da história da Humanidade, tanto quanto o vinho. Esta cultura foi soterrada no país por anos e anos de massificação promovida pelas grandes cervejarias, num processo semelhante ao que aconteceu no mundo todo. Mas na Europa e nos Estados Unidos aconteceram movimentos contrários a isto, que resgataram a cultura cervejeira, revertendo este processo nefasto (procurem saber mais sobre a Craft Beer Renaissance, a Campaign For Real Ale (CAMRA) e a Microbrewery Revolution). Mas quando no Brasil isto finalmente se configura, de quem recebemos ajuda? Dos nossos amigos do vinho? Infelizmente não.

2: O interessante é observar que, apesar de muitos “amantes do vinho” insistirem em menosprezar a cerveja como “bebida inferior”, nós, amantes da cerveja, respeitamos e reconhecemos o lugar do vinho na história e na gastronomia. Aí me vêm à mente dois aspectos: o primeiro é que é muito difícil se encontrar alguém em nosso meio que tenha uma postura arrogante e elitista, do tipo “eu entendo mais do que você” ou “estou tomando uma Westvleteren ano 1986, olha como eu sou foda”. Pelo contrário. A cena cervejeira vem sendo construída aqui com uma união espantosa, alimentada pelas associações de produtores artesanais, confrarias, blogueiros e pelos próprios donos de microcervejarias. Todos se conhecem e, mais do que isso, são amigos. Mesmo. E o segundo é: é realmente necessário menosprezar a cerveja para garantir o lugar que o vinho já tem? Incomoda o fato da cultura cervejeira estar crescendo? Assusta a possibilidade da cerveja ser rica, complexa e sim, mais versátil para harmonizações do que o vinho? A quem interessa ter um mercado elitista? Cerveja não é “chique” ou nobre como o vinho?

Ah, me desculpe Renato, esqueci que o senhor não gosta de cerveja, só de vinho. Mas aí eu faço a mesma pergunta que faço a todo mundo que me diz que não gosta de cerveja: o senhor conhece cerveja? Então fica UMA dica só: fique de olho no próximo post, que é sobre um cara que tem feito muito para divulgar a cultura cervejeira e derrubar, com elegância, estes mitos ridículos criados pelos “wine snobs” ou enochatos. Terá inclusive um videozinho chamado “Cheese Wars – Beer x Wine with cheese”. Ah, e, assim como eu, ele também gosta de vinho.

Ouvindo: Faith No More – Surprise…You’re Dead!

7 Respostas para “CERVEJA E VINHO – INIMIGOS MORTAIS?

  1. Será que o “mair conhecedor de cervejas ” no Brasil, Renato Machado, sabe o que é uma Westvleteren? Será que ele sabe pronunciar o nome da referida cerveja??? Estamos dando antenção para quem não merece. O Renato nem de vinho entende. Já o escutei falando barbaridades sobre o assunto. Vamos tocar nosso trabalho em busca do reconhecimento da cerveja, essa maravilhosa bebida dos deuses, a inveja de Baco! Abraço

  2. Olá amigão e diretor!

    Muito bom o post!

    Acompanhei o Renato falando sobre cerveja mas não dei muita nota. De fato pareceu um momento de pouca sanidade e respeito.

    Como disse, fizemos nossa degustação no Castelo do Vinho e lá faremos o primeiro Beer & Wine do Brasil. Do lado do Wine teremos o mestre Luiz Augusto que, dentre muitos, já degustou muitos vinhos ao lado do Machado. Logo, a ABRADEG vai fazer uma matéria do Luiz, que respeita e muito a cerveja onde ele vai falar um pouco sobre isso. Outro cara com grande entrada nos dois mundos é o Sérgio da Colorado, que podemos envolver.

  3. Mesmo o maior ícone de harminização de vinhos – a feita com queijos – já não é mais unanimidade. Willie Gluckstein, um dos mais renomados especialista em vinhos e harmonizações americano considera a harmonização de vinhos e queijos “um desastre de trem na boca”.

  4. Vamos falar com a diretora da CBN:
    mande um e-mail: mariza.tavares@cbn.com.br

  5. Como presidente da ABRADEG – Associação Brasileira de Degustadores de Cerveja que possui membros e associados em todo o Brasil, todos amantes da cerveja especial (e também do vinho), devo me manifestar e dizer que a comparação feita pelo nobre Renato foi muito infeliz, é indevida, repleta de erros e pouco elaborada.

    O Vinho e a Cerveja possuem histórias distintas, processos produtivos totalmente diferentes e, lógico resultados diferentes. Particularmente, como amante de ambos, eu sugiro que não façam essas comparações.

    A sociedade moderna global vem passando por um movimento cultural muito intenso de resgatar a história da cultura cervejeira com muito cuidado e respeito a qualquer outro produto, como vinho, queijo, pães, azeite, etc. E esse mesmo respeito não foi demonstrado na aparente tentativa de depreciar a cerveja e toda a cultura e história que ela carrega.

    Polemizar e agredir não é o comportamento que achamos correto, por isso pedimos aos amigos amantes da boa cerveja que não agridam ou ofendam o Renato Machado, mas que o ajude postando textos sobre harmonização, degustações, enfim, que o abasteçam de informação para que ao menos o ajudemos a conhecer este universo que ele pouco conhece.

    Renato, a ABRADEG se coloca ao seu dispor para apoiá-lo na busca de conhecimento sobre a cerveja, sua cultura e história. Conte conosco.

  6. Pingback: Vinho vs Cerveja « /home/claudio

  7. Meu amigo, se você tiver a infelicidade de ler o livro “Vinhos versus Cervejas”, irá verificar que opiniões radicais, tendenciosas e infundadas não são um privilégio dos amantes dos vinhos. É inacreditável que alguém se dê ao trabalho de escrever um livro inteiro focado em realçar as qualidades das cervejas em detrimento das qualidades dos vinhos…

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